A lembrança de Zoltan sendo linchado pelas crianças me fez recordar de Cleitoválter, filho de minha comadre Sebastiana, que era irmã da tia da avó da vizinha de seu Bionor Elha, um pacato velhinho que cuidava do maior puteiro de Quissamanduca, o Colossu Ruba. Cleitoválter era um menininho ruivinho, cheio de sardas, com carinha de anjo. Carinha, porque aquilo era o cão. O moleque foi expulso das três escolas que existiam em Quissa, sendo que chegou a sair algemado da primeira vez. E tinha só dois anos. Ele invadiu a sala da diretora da Escola Santa Eutanásia Malagueta, o estabelecimento de ensino mais tradicional da região, e tentou estuprar a madre superiora, freira Dolores, um velhinha de 89 anos. Após esse episódio rumoroso, Cleitoválter foi matriculado no Internato Dom Cabrito Numberra, mas permaneceu lá somente uma noite, pois no dia seguinte descobriram o cocô gigante que ele depositou sobre a mesa e, consequentemente, sobre a coleção de selos raros do diretor Olegário Borborema, que teve um ataque cardíaco e morreu ao ver o descomunal tolete repousando sobre seus amados selinhos. Concluindo a trajetória acadêmica, Cleitoválter foi conduzido (a expressão é essa mesma) ao Reformatório Saddam Hussein. Lá o moleque não teve vida boa e permaneceu por mais tempo: três dias. Numa áspera discussão com um interno, Clei se descontrolou: mordeu e arrancou um das orelhas do colega, sendo imediatamente expulso e deixando o local num camburão e ainda mascando a orelha. Essa breve apresentação faz-se necessária para que vocês, meus fãs queridos de todo o planeta, entendam meu desespero ao receber a ligação de minha comadre Sebastiana me pedindo para ficar com Cleitoválter durante o domingo, pois ela viria ao Rio para um batizado na Favela do Fubá Queimado, mas foi proibida por Nozão do Pó, chefe do tráfico local, de subir lá com o filho. A razão era simples, um ano antes eles passaram o feriado do Zumbi dos Palmares na comunidade e Cleitoválter tocou um terror, chegando ao ponto de fazer Nozão ter uma incontrolável crise de choro após ver Clei mijando num carregamento que acabara de chegar fresquinho da Bolívia. Outro motivo forte para que minha comadre não levasse o garoto era o temor de ele afogar o bebezinho na pia batismal. Isto posto, e sem alternativa, disse à comadre que, com a ajuda do Senhor, poderia sim ficar com Clei durante algumas horas.
E chegou o maldito domingo. Por volta das 13 horas, batem na porta do meu quarto, e meu coração quase parou. Então, pego uma medalhinha de São Francisco de Assis, aquele dos animais, faço uma breve prece ao santo e, segurando a medalhinha, caminho vagarosamente até a porta, talvez esperando ser fulminado por um raio e não ter de abri-la. Coloco a mão na maçaneta que, para tornar a tensão ainda maior, sai na minha mão. Trêmulo, consigo por a maçaneta no lugar e abro a porta bem devagar. Naquele instante teria início algumas das piores horas da minha gloriosa vida de herói. De súbito, levei um bico no saco. Após me ver cair, Cleitoválter entra correndo pelo quarto, pisando, antes, na minha cabeça. A dor absurda em minhas partes baixas e a falta de ar provocada pelo petardo que veio de baixo pra cima que me fez subir mais de um metro me fizeram imaginar que estava morrendo. Apenas como registro, após o impacto a medalhinha de São Francisco voou da minha mão e nunca mais a vi.
Enquanto eu tentava, ainda estirado no chão, voltar à vida, ouvi aquele moleque safado dizer que queria ir ao Mundo Encantado do Zé, o parque de diversões de Santa Cruz. Me apoiando na parede, eu me levantei e, com muito esforço pra falar, disse ao garoto: “Tudo bem, mas se você não se comportar lá, eu me mando!”. Ele aceitou o trato e, depois de mais um tempo me refazendo, fomos ao parque que ficava a uns cinco quarteirões da pensão do Vasco. Durante o caminho, Clei se distraía arremessando rebocos nos velhinhos que passavam, enquanto eu seguia meio à distância rezando um terço de Itu que ganhei numa rifa. Finalmente chegamos ao parque, que era realmente um espetáculo. Dentre as várias atrações, havia a Corrida Radical (as crianças entravam num caixote amarrado nuns jegues que saiam em disparada por um capinzal); o Trem Fantasma (um trenzinho que demorava meia hora pra percorrer um túnel se cinco metros repleto de monstros, caveiras e pôsteres da Elza Soares); Monga, a mulher Gorila (a moça que vestia a fantasia era uma das bilheteiras, reconheci pelo bafo); um leão de verdade (o bicho dava pena, era tão velho que a juba era branca e ele só tinha quatro dentes inteiros na boca); e a maior de todas as atrações, Demétrius, um equilibrista que, dizem, chegou a trabalhar num famoso circo da Espanha, mas como porteiro.
Logo ao chegarmos, Cleitoválter pediu um algodão doce, mas a onda dele não era comer a guloseima e sim pegar o pauzinho e sair espetando a bunda das mulheres. Ao ver o leão, que se chamava Osvaldo, Clei parou. Nesse momento, temi mesmo pelo futuro daquilo que um dia foi um animal selvagem. Cleitoválter foi se aproximando do leão que, magro que nem a porra, seguia olhando pro chão e não parava de chupar um punhado de capim que colocara na boca de manhã. Ao reparar que Clei estava a dois palmos de distância, o leão ergue a cabeça, olha pro garoto e lentamente abre a boca mostrando os quatro dentes (o quarto ficava lá atrás, mas dava pra ver) e o chumaço de capim na língua. O domador ainda previu o que estava por acontecer e, com a voz embargada, implorou a Cleitoválter: “Não faz isso não!”. Foi aí que, com a rapidez de um samurai, Clei dá uma tapa nos córneos do Leão. Realmente foi duro ver o bicho sair rolando pela direita, derrubar o domador e depois o biombo que servia de parede pro banheiro coletivo. A gritaria foi geral, um corre-corre danado. A cena da velhinha sentada no vaso e gritando que o mundo estava acabando não me sai da lembrança até hoje. Temendo que descobrissem que Clei fora o causador do tumulto, peguei o moleque pelo braço e saí correndo pra outra parte do parque. Antes eu tivesse ido embora. Paramos em frente à barraca de Demétrius, o equilibrista. Uma pequena multidão assistia quieta àquele cara alto, de bigode e enfiado num ridículo collant rosa e azul equilibrar com a cabeça um monte de copos cheio de água. Realmente era impressionante, tinha mais de cinquenta copos. E ainda havia um baixinho em cima de uma escada se preparando para colocar mais um. Minha clarividência de super herói me alertava naquele momento que algo terrível estava por acontecer, e imediatamente procurei Cleitoválter. Tarde demais. Aquele filho da p. já se preparava pra arremessar uma laranja parruda que ele achara no chão. Eu ainda gritei: “Nããããããooooo!!!!!!”. Mas foi em vão. O laranjão parecia um torpedo e foi direto na testa de Demétrius. A porrada foi tão grande, que a laranja voltou em sentido contrário e acertou a boca do palhaço, uma barraquinha que ficava na outra extremidade do parquinho. Com o impacto, antes de desmaiar, o equilibrista quase se afogou com tanta água que caiu sobre ele. Foi aí que, temendo que Cleitoválter demolisse inteiro o simpático Mundo Encantado do Zé, resolvi pegar o moleque e sair às pressas do local, devolvendo aquela criatura do inferno pra minha comadre, que já voltava do concorrido batizado.
Graças a Deus, essa foi a última visão material que tive desse moleque (em alguns pesadelos ele já deu o ar da graça algumas vezes). Informações não confirmadas dão conta de que Cleitoválter, hoje um rapaz, teria fugido de Quissamanduca, indo a pé até o Iraque e se tornado membro da TET, Trope de Elite Talibã.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Capítulo 22: Zoltan, o Mestre dos Mágicos
Bem, antes de iniciar mais uma capítulo da minha impressionante história, preciso revelar ao planeta o motivo que fez com que me ausentasse de meu blog por tanto tempo. Devido a um infortúnio, tive de deixar a cidade por alguns meses. Em uma das minhas diversas atividades comerciais (sempre topei qualquer parada pra arrumar algum), conheci uma moça muito bonita, chamada Leonor. Éramos colegas no salão de beleza Meson Futun. Ela trabalhava como manicure e eu exercia uma função indispensável para o bem estar físico e emocional de todos no local: trocava o papel higiênico do banheiro. Pois bem, com o passar do tempo, eu e Leonor vimos que éramos feitos um para o outro e iniciamos um tórrido romance. Porém, forças externas impediram que esse enredo tivesse o final desejado por nós dois. Na realidade, Leonor era amante de Carlão Navalhada, o banqueiro que comandava o jogo do bicho em toda a zona oeste. Para a minha infelicidade, o moço descobriu meu caso com Leonor. Alertado por meus amigos, fiquei sabendo que Carlão estava chegando à pensão do Vasco com a intenção de me capar. Felizmente, sempre tive o raciocínio rápido e imediatamente deixei a cidade, me instalando em uma tribo de índios no interior do Piauí (um amigo tinha uma oca alugada lá e me ofereceu abrigo). Para não correr nenhum risco de exposição desnecessária, e consequente possibilidade de ser encontrado por aquele contraventor malvado, me acomodei durante seis meses debaixo da cama (era um povo bem moderninho) de uma índia velha. Até hoje me lembro do nome daquela aborígene: a amável Teta Numbigo. Voltei à pensão do Vasco quando soube que Carlão, graças a Deus, havia morrido numa explosão causada por seu inimigo Capitão Furacão, agora o novo manda-chuva da área. Mesmo com Carlão fora de combate, não pude reencontrar Leonor, que após o enterro do bicheiro fugiu da cidade com o padre que encomendou o corpo. Tudo explicado, vamos voltar à minha saga.
Como mencionei, sempre tive de correr atrás para conseguir dinheiro e cuidar da minha sobrevivência. Apesar de ser um super-herói corajoso, invencível e lindo, eu não tinha um puto no bolso e precisava me virar, encarando o que viesse pela frente. Certo dia, estava lendo a parte dos classificados do jornal (seu Vasco sempre deixava um exemplar no banheiro da pensão) quando me deparei com um anúncio interessante. “Recruto super-heróis. Pago bem.”. Sentado no trono, eu anotei o endereço e, após desproduzir o almoço (naquele dia foi canja de galinha com farinha), segui direto para o local. Ao chegar, me deram um papelzinho com o número 6 e me mandaram para uma salinha, onde havia outros cinco caras. Tinha um Batman, um Capitão América, um Tarzan, um Papai Noel e um Chapolim Colorado. Após uma rápida analisada, vi que aqueles concorrentes não seriam páreo para mim. A barriga do Batman era uma vergonha. A roupa, que tinha na gola uma etiqueta velha da Mesbla (acho que faliu há mais de 20 anos) devia ser uns três tamanhos abaixo, tanto que o umbigo (estufado) parecia até um olho em alto relevo. O Tarzan, coitado, era o oposto, osso puro. O bicho era tão magro que foi dar um levantada pra pegar uma água e a tanga caiu. Já o Papai Noel só podia tá de sacanagem. Mas o Chapolim tinha estilo, só que chegou bêbado e tava dormindo no sofá. Deixei o Capitão América por último de propósito. Logo quando cheguei, vi que ele me olhou estranho, e veio logo falar comigo: “Nossa, Spider, amei sua sunga!”. Não gostei do comentário. Achei impertinente, mas fingi que não escutei. Mas o cara insistiu: “Uhm, deixa eu ver o tecido!”. Ao sentir a patolada, o sangue subiu. Dei-lhe uma tapa na orelha e o tempo fechou. O Papai Noel arremessou o saco na minha direção, mas acertou o Tarzan, que, com o impacto, atravessou a porta de vidro e foi parar dentro do elevador de serviço do prédio. Depois de dois minutos tentando se levantar (a barriga dificultava os movimentos), o Batman segurou o Capitão América, que lhe deu um beijo na boca. Rapidamente, os dois saíram de mãos dadas e foram embora. Enquanto eu dava umas porradas no Papai Noel, o Chapolim permanecia imóvel, deitado no sofá. Bêbado feito uma gambá, o cara roncava com a boca aberta e não viu o fuzuê. Com a confusão, entrou na sala um homem esquisito, baixinho, de cavanhaque e todo de preto. “Mas o que é isso?”, gritou. Com a roupa toda rasgada (quem mandou tacar o saco em mim? Não tive pena mesmo), o Papai Noel foi logo descartado pelo cara, que mandou dois funcionários do prédio carregarem o Chapolim pinguço (ele deixou o escritório dentro de um carrinho de mão) Como só sobrou eu, o homem se apresentou: “Muito bem, meu nome é Rudimilson. Coloquei o anúncio no jornal porque estou precisando de alguém que sirva de super-herói em festas infantis. Sou mágico e me apresento sozinho. Mas sinto que a criançada fica meio de saco cheio dos meus números, e quero diversificar. Gostei do seu estilo, e acho que você vai se dar bem nessa. O trabalho é moleza, você enche a pança e ainda te pago trinta pratas por evento. Tá dentro?”, perguntou o mágico. “Na falta de coisa melhor, respondi de pronto: “Começo quando?”. Rudimílson disse que no dia seguinte já teria uma festa, que prometia bombar. Era em Santíssimo, pra 200 pessoas. O aniversariante era um garoto chamado Jurandir e o pai resolveu gastar, alugando um salão de festas, quer dizer, um galpão de festas. Rudimilson marcou comigo no escritório para irmos juntos.
Cheguei no horário determinado e toquei a campainha. Quando a porta abriu, não me contive, tive um ataque de riso que durou mais de meia hora. Rudimilson, que tinha pouco mais de um metro e meio, estava vestido com uma roupa lilás, uma capa que era maior que ele e um turbante branco com uma pedra brilhante ao centro. Eu cheguei a ser demitido enquanto ria, mas readmitido em seguida, pois o mágico tinha de cumprir o acordo feito com o contratante e apresentar a atração da festa, o Spider-Man. Chegando ao estacionamento fomos em direção a um fusca que estava estacionado entre uma bicicleta e um velotrol (pra quem não lembra, era uma espécie de velocípede de plástico). Ainda sem conseguir parar de rir, entrei no automóvel e, pra tentar me distrair e manter meu emprego, peguei pra ler um folheto que estava no chão do fusca. Estava escrito “Zoltan, o Mestre dos Mágicos”. Não é preciso comentar que tive nova crise, desta vez chegando a chorar de tanto rir. Indignado com minha reação, Rudimilson, ou melhor, Zoltan, me ameaçava: “Se não parar agora, eu demito você depois da festa!”. Precisando muito daquele emprego, fiz valer uma técnica que aprendi com os monges do Convento dos Capuchinhos Alienígenas. O procedimento era simples: para cessar imediatamente um incontrolável acesso de riso é necessário tão somente se concentrar em algo horrível. Imediatamente, voltei no tempo em que fiquei escondido embaixo da cama de Teta Numbigo e via, de uma posição privilegiada, aquela índia velha pelada todos os dias. Bem, depois de ficarmos presos num trânsito infernal (uma das ruas próximas estava interditada por causa de uma feira, chegamos ao local da festa. O evento realmente prometia. Ao entrarmos, fomos recepcionados pelas crianças que, excitadas com nossa chegada, pularam em cima da gente e nos derrubaram com tapas e bicos de todas as formas (tinha um miserável de um gordinho que mandava ver com uma ripa de madeira). Depois de uns 15 minutos tentando sair daquela sessão de espancamento, finalmente consegui me libertar e correr em direção à mesa do bolo. Foi aí que tomei conta da festa No desespero de me salvar do linchamento, corri tão rápido que não vi um dos garçons. O impacto foi inevitável, o que fez com que a bandeja com refrigerantes voasse alto em direção a uma mesa com oito senhoras, cuja mais novinha devia ter uns 85 anos. A bandeja de alumínio girava e se aproximava velozmente da testa de uma das velhas. Porém, em um reflexo que somente os super-heróis de verdade possuem, joguei minhas teias em direção ao objeto voador, que parou a um palmo dos córneos da coroa. Naquela instante, todos no recinto exclamaram: “Oooooohhhhhhhhhhh!!!!”. Aplaudido freneticamente pela multidão, agradeci o carinho e encaminhei na direção da mesa daquelas idosas para me certificar se estavam todas ok. “As vovós estão bem?”. Para meu espanto, nenhuma das oito acompanhou o ocorrido, e seguiam animadas numa disputada partida de bingo. Ao me ver chegando, um delas se pronunciou: “Meninas, o garçom chegou! Eu quero um chops! Eu quero um chops!!!”. Aliviado por estarem todas inteiras (ou quase), fui caminhando pra lateral do galpão, quando me toquei que não avistava Zoltan. Me aproximei do pai do aniversariante e perguntei onde estava o mágico. “Ah, ele está brincando com as crianças. Ele é muito bom!”. Foi nessa hora que reparei um tumulto do lado oposto de onde eu estava. Disfarçadamente (peguei emprestado uma revista e fingi que estava lendo) cheguei perto e pude ver o que ocorria. Todo pintado de verde e cheio de espuma, Rudimilson foi pendurado em um varal e servia de mira pros moleques que arremessavam tudo que tinham nas mãos (lembram do gordinho? Pois bem, esse chegou a tacar uma cadeira!). Exatamente naquele instante, um dos molequinhos gritou: “Cadê o Spider! Agora é a vez dele!”. A percepção de um herói tem de ser aguçada, isso nos faz diferentes das pessoas comuns. Senti que era o momento de deixar o local e, cortando caminho pela cozinha improvisada, deixei correndo o galpão e, mais uma vez, escapei com denodo das garras de malfeitores sanguinários, o que me permite estar aqui e ser esta lenda viva para a humanidade.
Como mencionei, sempre tive de correr atrás para conseguir dinheiro e cuidar da minha sobrevivência. Apesar de ser um super-herói corajoso, invencível e lindo, eu não tinha um puto no bolso e precisava me virar, encarando o que viesse pela frente. Certo dia, estava lendo a parte dos classificados do jornal (seu Vasco sempre deixava um exemplar no banheiro da pensão) quando me deparei com um anúncio interessante. “Recruto super-heróis. Pago bem.”. Sentado no trono, eu anotei o endereço e, após desproduzir o almoço (naquele dia foi canja de galinha com farinha), segui direto para o local. Ao chegar, me deram um papelzinho com o número 6 e me mandaram para uma salinha, onde havia outros cinco caras. Tinha um Batman, um Capitão América, um Tarzan, um Papai Noel e um Chapolim Colorado. Após uma rápida analisada, vi que aqueles concorrentes não seriam páreo para mim. A barriga do Batman era uma vergonha. A roupa, que tinha na gola uma etiqueta velha da Mesbla (acho que faliu há mais de 20 anos) devia ser uns três tamanhos abaixo, tanto que o umbigo (estufado) parecia até um olho em alto relevo. O Tarzan, coitado, era o oposto, osso puro. O bicho era tão magro que foi dar um levantada pra pegar uma água e a tanga caiu. Já o Papai Noel só podia tá de sacanagem. Mas o Chapolim tinha estilo, só que chegou bêbado e tava dormindo no sofá. Deixei o Capitão América por último de propósito. Logo quando cheguei, vi que ele me olhou estranho, e veio logo falar comigo: “Nossa, Spider, amei sua sunga!”. Não gostei do comentário. Achei impertinente, mas fingi que não escutei. Mas o cara insistiu: “Uhm, deixa eu ver o tecido!”. Ao sentir a patolada, o sangue subiu. Dei-lhe uma tapa na orelha e o tempo fechou. O Papai Noel arremessou o saco na minha direção, mas acertou o Tarzan, que, com o impacto, atravessou a porta de vidro e foi parar dentro do elevador de serviço do prédio. Depois de dois minutos tentando se levantar (a barriga dificultava os movimentos), o Batman segurou o Capitão América, que lhe deu um beijo na boca. Rapidamente, os dois saíram de mãos dadas e foram embora. Enquanto eu dava umas porradas no Papai Noel, o Chapolim permanecia imóvel, deitado no sofá. Bêbado feito uma gambá, o cara roncava com a boca aberta e não viu o fuzuê. Com a confusão, entrou na sala um homem esquisito, baixinho, de cavanhaque e todo de preto. “Mas o que é isso?”, gritou. Com a roupa toda rasgada (quem mandou tacar o saco em mim? Não tive pena mesmo), o Papai Noel foi logo descartado pelo cara, que mandou dois funcionários do prédio carregarem o Chapolim pinguço (ele deixou o escritório dentro de um carrinho de mão) Como só sobrou eu, o homem se apresentou: “Muito bem, meu nome é Rudimilson. Coloquei o anúncio no jornal porque estou precisando de alguém que sirva de super-herói em festas infantis. Sou mágico e me apresento sozinho. Mas sinto que a criançada fica meio de saco cheio dos meus números, e quero diversificar. Gostei do seu estilo, e acho que você vai se dar bem nessa. O trabalho é moleza, você enche a pança e ainda te pago trinta pratas por evento. Tá dentro?”, perguntou o mágico. “Na falta de coisa melhor, respondi de pronto: “Começo quando?”. Rudimílson disse que no dia seguinte já teria uma festa, que prometia bombar. Era em Santíssimo, pra 200 pessoas. O aniversariante era um garoto chamado Jurandir e o pai resolveu gastar, alugando um salão de festas, quer dizer, um galpão de festas. Rudimilson marcou comigo no escritório para irmos juntos.
Cheguei no horário determinado e toquei a campainha. Quando a porta abriu, não me contive, tive um ataque de riso que durou mais de meia hora. Rudimilson, que tinha pouco mais de um metro e meio, estava vestido com uma roupa lilás, uma capa que era maior que ele e um turbante branco com uma pedra brilhante ao centro. Eu cheguei a ser demitido enquanto ria, mas readmitido em seguida, pois o mágico tinha de cumprir o acordo feito com o contratante e apresentar a atração da festa, o Spider-Man. Chegando ao estacionamento fomos em direção a um fusca que estava estacionado entre uma bicicleta e um velotrol (pra quem não lembra, era uma espécie de velocípede de plástico). Ainda sem conseguir parar de rir, entrei no automóvel e, pra tentar me distrair e manter meu emprego, peguei pra ler um folheto que estava no chão do fusca. Estava escrito “Zoltan, o Mestre dos Mágicos”. Não é preciso comentar que tive nova crise, desta vez chegando a chorar de tanto rir. Indignado com minha reação, Rudimilson, ou melhor, Zoltan, me ameaçava: “Se não parar agora, eu demito você depois da festa!”. Precisando muito daquele emprego, fiz valer uma técnica que aprendi com os monges do Convento dos Capuchinhos Alienígenas. O procedimento era simples: para cessar imediatamente um incontrolável acesso de riso é necessário tão somente se concentrar em algo horrível. Imediatamente, voltei no tempo em que fiquei escondido embaixo da cama de Teta Numbigo e via, de uma posição privilegiada, aquela índia velha pelada todos os dias. Bem, depois de ficarmos presos num trânsito infernal (uma das ruas próximas estava interditada por causa de uma feira, chegamos ao local da festa. O evento realmente prometia. Ao entrarmos, fomos recepcionados pelas crianças que, excitadas com nossa chegada, pularam em cima da gente e nos derrubaram com tapas e bicos de todas as formas (tinha um miserável de um gordinho que mandava ver com uma ripa de madeira). Depois de uns 15 minutos tentando sair daquela sessão de espancamento, finalmente consegui me libertar e correr em direção à mesa do bolo. Foi aí que tomei conta da festa No desespero de me salvar do linchamento, corri tão rápido que não vi um dos garçons. O impacto foi inevitável, o que fez com que a bandeja com refrigerantes voasse alto em direção a uma mesa com oito senhoras, cuja mais novinha devia ter uns 85 anos. A bandeja de alumínio girava e se aproximava velozmente da testa de uma das velhas. Porém, em um reflexo que somente os super-heróis de verdade possuem, joguei minhas teias em direção ao objeto voador, que parou a um palmo dos córneos da coroa. Naquela instante, todos no recinto exclamaram: “Oooooohhhhhhhhhhh!!!!”. Aplaudido freneticamente pela multidão, agradeci o carinho e encaminhei na direção da mesa daquelas idosas para me certificar se estavam todas ok. “As vovós estão bem?”. Para meu espanto, nenhuma das oito acompanhou o ocorrido, e seguiam animadas numa disputada partida de bingo. Ao me ver chegando, um delas se pronunciou: “Meninas, o garçom chegou! Eu quero um chops! Eu quero um chops!!!”. Aliviado por estarem todas inteiras (ou quase), fui caminhando pra lateral do galpão, quando me toquei que não avistava Zoltan. Me aproximei do pai do aniversariante e perguntei onde estava o mágico. “Ah, ele está brincando com as crianças. Ele é muito bom!”. Foi nessa hora que reparei um tumulto do lado oposto de onde eu estava. Disfarçadamente (peguei emprestado uma revista e fingi que estava lendo) cheguei perto e pude ver o que ocorria. Todo pintado de verde e cheio de espuma, Rudimilson foi pendurado em um varal e servia de mira pros moleques que arremessavam tudo que tinham nas mãos (lembram do gordinho? Pois bem, esse chegou a tacar uma cadeira!). Exatamente naquele instante, um dos molequinhos gritou: “Cadê o Spider! Agora é a vez dele!”. A percepção de um herói tem de ser aguçada, isso nos faz diferentes das pessoas comuns. Senti que era o momento de deixar o local e, cortando caminho pela cozinha improvisada, deixei correndo o galpão e, mais uma vez, escapei com denodo das garras de malfeitores sanguinários, o que me permite estar aqui e ser esta lenda viva para a humanidade.
domingo, 17 de agosto de 2008
Capítulo 21: A Primeira Aparição de Spider na TV
A explosão de Valdemar do Gás fez com que a popularidade do Spider ficasse um tanto quanto abalada. Sendo assim, procurei os serviços de um assessor de imprensa para cuidar da reparação da imagem do herói. Como não podia revelar minha identidade secreta, tive de fazer uma busca pela internet, pois só assim eu poderia encontrar alguém de relevo sem me expor. Encontrei um cara chamado Romualdo Panzilão, que dizia ser capaz de recuperar qualquer carreira em declínio, fazer qualquer um se tornar rei em popularidade, a ponto de tornar Hitler síndico de um condomínio formado por negros e judeus. Pensei na hora: “É esse!”.
Liguei para o assessor e marquei um encontro. Buscando privacidade, escolhi um local reservado para a reunião e, claro, fui como Spider. Na hora combinada, Panzilão chegou ao restaurante de comida chinesa, o Ma Fu A, um self-service você mesmo. Trajando um terno abacate, sutilmente combinando com uma gravata laranja (ilustrada com personagens da turma do Pernalonga), o profissional se apresentou e foi logo dizendo: “É, meu camarada, teremos um longo trabalho pela frente. A lambança foi grande e seu filme queimou geral!”. Achei a sinceridade um pouco inoportuna, mas resolvi dar um crédito. Perguntei qual seria o primeiro passo e ele me disse que eu deveria aparecer na mídia, e me aconselhou: Spider, tenho uma idéia que fará você recuperar sua credibilidade. Será uma bela oportunidade de mostrar que, apesar de tudo, você também é gente!”. Igualmente, não gostei do fim do comentário, porém decidi encarar e pedi que continuasse. “Tenho o programa ideal pra você ir” É o Samba Show!”. Surpreso, perguntei ao assessor: “Cara, alguém vê isso?”. Mostrando-se ofendido, Panzilão disparou: “É por isso que você tá nessa draga desgraçada. Não sabe nada! Samba Show é um programa do povo, e será uma forma de você provar o lado simples do herói!”. Depois da explanação convincente do meu assessor de imprensa, resolvi aceitar e topar o desafio.
Devidamente vestido de Spider, cheguei à emissora e fiquei aguardando ser chamado para o programa. Na sala de espera, que mais parecia um quarto de tão pequeno, estávamos eu, uma rapaziada com alguns instrumentos de percussão, uma loiraça, uma moça negra bem gorda que lembrava muito a cozinheira da pensão do Vasco, um cara metido a bonitão, um coroa com uma pinta de tarado; e um neguinho magrinho. Em um dado momento, uma mulher chegou correndo e gritou pra gente:”É pra entrar! É pra entrar! Entra logo, porra! Começamos a correr em direção a um corredor que daria no estúdio. Na ânsia de entrar primeiro, a loira boazuda deu em chega pra lá na gordona, que saiu catando cavaco até derrubar um câmera man e o equipamento (um paraíba que estava em um andaime segurando uns cabos veio junto). Refeito do susto que o fez zunir o microfone e se jogar na platéia (12 pessoas), o apresentador, um tal de Jabbá, ajudou a gorda a se levantar e a apresentou ao público: “Quero palmas pra dona Orlandina de Morais, um baluarte do nosso samba!” Após ajeitar a saia, que subiu até o pescoço (a lamentável visão me perseguiu durante meses), a veterana sambista sentou-se à mesa que estava preparada para receber também os demais convidados. Aos poucos, fomos apresentados e nos acomodando. A loira era Rita Cavanhaque, modelo e a atriz que aguardava convite para um novo trabalho (o último tinha sido o pornô “A Princesa e o Jumento”); o bonitão era Roberto Abílio, galã da Rede Vida (protagonista das novelas Tormenta de Uma Paixão e Diário de um Corno); o velho era o doutor Felipe Nistorto, autor do premiado livro de bolso Posições Sexuais para Anões; enquanto o filé de borboleta era o MC Ferrô, autor do funk da Mulher Banana. Como a mesa só tinha lugar pra seis, o grupo de pagode Suvaco do Tigre ficou em pé, ao lado do bar.
Bem, é importante ressaltar que o ar condicionado estava quebrado e o calor naquele lugar era infernal. Com o samba rolando solto, o programa seguia. Nós, os convidados, éramos servidos por um garçom, que a todo instante nos trazia salgadinhos e cerveja temperatura ambiente (o anunciante Cervatecatá doava os engradados). Tudo caminhava razoavelmente bem até eu ter a infeliz idéia de experimentar a empadinha. O Roberto Abílio ainda me avisou: “Vai não!” Sem dar atenção ao conselho, coloquei na boca o salgado e comecei a mastigar. Resolvi beber um gole da cerveja pra dar uma facilitada no processo. Depois de uns oito minutos tentando engolir, eu comecei a perder o ar. Foi aí que, inadvertidamente, o apresentador anunciou: “E aí Spider, e os projetos? Diz alguma coisa! Só se for agora!”. Neste instante, todas as câmeras se voltaram para mim à espera de uma resposta. Com a boca entupida e sem conseguir respirar, só me restou abraçar o apresentador e olhá-lo nos olhos. Felizmente, ele percebeu que eu não me encontrava muito bem e contornou a situação: “Bem, vejo que nosso herói está um pouco emocionado! Depois eu volto com você, Spider! Só se for agora!”.
Consegui me sentar e, ao bater a bunda na cadeira de ferro, consegui, com a ajuda do Senhor, engolir a maçaroca. Aliviado, avisei ao contra-regra que precisava ir ao banheiro lavar o rosto (minha máscara estava toda babada), e fui saindo de gatinho para que as câmeras não me filmassem. No entanto, não consegui me limpar, pois ao abrir a porta do banheiro dei de cara com a dona Orlandina sentada no vaso. Paralisado com a visão do inferno, ouvi a veterana sambista me confidenciar: “Exagerei nos cocrete!”.
Em estado de choque, voltei para o estúdio e sentei novamente à mesa. Sem alternativas, busquei me descontrair com o sambão que estava rolando. Ao olhar pro sexólogo, saquei que ele não parava de manjar as pernas de Rita Cavanhaque, que lutava ferozmente para tirar um osso de coxinha que insistia em permanecer entre os seus dentes. Aquilo me deu um arrepio e tentei me distrair comendo um rissole que sobrara no prato. Após finalizar o salgadinho, fiquei sem saber o que fazer com o caroço da azeitona. Neste instante, me lembrei da minha infância em Quissamanduca, época em que eu era o rei do peteleco. Então, não tive dúvidas: coloquei o caroço na mesa, preparei o dedo, mirei no corredor e mandei bala. Mas o tempo de criança passou e eu não era mais o mesmo. Sem a prática de antes, errei a direção e acertei em cheio a testa do apresentador. A porrada foi tão forte, que derrubou o cara. Ele se levantou com a ajuda das sambates (as mulatas que dançavam no programa) e, injuriado, bradou: “Porra, isso é sacanagem! Quem foi o safado?” Um silêncio tomou conta do local. Daí, um cara gritou: “Chama os comerciais!”. Durante as propagandas, Jabbá foi consolado por uma assessora e se acalmou um pouco. Com a marca da caroçada na testa, o apresentador retomou as rédeas do programa.
Mais relaxado, e meio calibrado pela Cervatecatá quente, fui entrando no clima e já estava me engraçando com uma das sambetes. Aí, Jabbá veio novamente: “Spider tá no clima! Agora, Valeska Jamelão vai fazer um show pra ele! Vem cá, minha deusa! Só se for agora!” E de trás das sambetes veio surgindo uma mulataça espetacular, de uns dois metros de altura. Ela veio gingando e me manjando. Chegou na minha frente, virou de costas e começou a rebolar freneticamente. Hipnotizado pela buzanfa descomunal, tive de me segurar na mesa para não cair (a roupa colada tava entregando meu estado). Nessa hora, o MC Ferrô mandou: “Tá dando bandeira, Spider! Vai que é tua, Taffarel!” Foi aí que Valeskão virou de frente e abriu os braços. O que aconteceu a seguir foi indescritível. Sem que eu pudesse esperar, o doutor Felipe colocou um dos seus pés na minha bunda e me empurrou em direção da mulata. A moça, que estava sambando direto a umas três horas, chegava a brilhar (me lembro de ter visto meu reflexo na barriga dela), ampliou o sorriso e sussurrou: “Vem, garoto!”. A última cena que me lembro foi do momento exato em que ela me abraçou. Como ela era bem mais alta que eu, meu rosto foi direto para perto de um dos seios e o nariz acabou colado na axila direita. Eu me recordo bem que, neste instante, me veio à mente o nome do grupo de pagode. Essas foram as últimas lembranças do Samba Show. Quando recobrei os sentidos, estava tomando soro em um posto de saúde. Meu assessor me disse que, após meu desmaio, dois seguranças entraram em cena e me arrastaram para um depósito, que eles chamavam de camarim. Como eu não dizia coisa com coisa, Panzilão achou por bem me levar a um hospital. Felizmente, o soro fez efeito rápido (em pouco mais de dez horas eu já tinha voltado à vida) e pude retornar pra casa. Sinceramente, nem me preocupava mais com minha imagem. O que importava pra mim e que, mais uma vez, eu vencera novo perigo e estava vivo.
Liguei para o assessor e marquei um encontro. Buscando privacidade, escolhi um local reservado para a reunião e, claro, fui como Spider. Na hora combinada, Panzilão chegou ao restaurante de comida chinesa, o Ma Fu A, um self-service você mesmo. Trajando um terno abacate, sutilmente combinando com uma gravata laranja (ilustrada com personagens da turma do Pernalonga), o profissional se apresentou e foi logo dizendo: “É, meu camarada, teremos um longo trabalho pela frente. A lambança foi grande e seu filme queimou geral!”. Achei a sinceridade um pouco inoportuna, mas resolvi dar um crédito. Perguntei qual seria o primeiro passo e ele me disse que eu deveria aparecer na mídia, e me aconselhou: Spider, tenho uma idéia que fará você recuperar sua credibilidade. Será uma bela oportunidade de mostrar que, apesar de tudo, você também é gente!”. Igualmente, não gostei do fim do comentário, porém decidi encarar e pedi que continuasse. “Tenho o programa ideal pra você ir” É o Samba Show!”. Surpreso, perguntei ao assessor: “Cara, alguém vê isso?”. Mostrando-se ofendido, Panzilão disparou: “É por isso que você tá nessa draga desgraçada. Não sabe nada! Samba Show é um programa do povo, e será uma forma de você provar o lado simples do herói!”. Depois da explanação convincente do meu assessor de imprensa, resolvi aceitar e topar o desafio.
Devidamente vestido de Spider, cheguei à emissora e fiquei aguardando ser chamado para o programa. Na sala de espera, que mais parecia um quarto de tão pequeno, estávamos eu, uma rapaziada com alguns instrumentos de percussão, uma loiraça, uma moça negra bem gorda que lembrava muito a cozinheira da pensão do Vasco, um cara metido a bonitão, um coroa com uma pinta de tarado; e um neguinho magrinho. Em um dado momento, uma mulher chegou correndo e gritou pra gente:”É pra entrar! É pra entrar! Entra logo, porra! Começamos a correr em direção a um corredor que daria no estúdio. Na ânsia de entrar primeiro, a loira boazuda deu em chega pra lá na gordona, que saiu catando cavaco até derrubar um câmera man e o equipamento (um paraíba que estava em um andaime segurando uns cabos veio junto). Refeito do susto que o fez zunir o microfone e se jogar na platéia (12 pessoas), o apresentador, um tal de Jabbá, ajudou a gorda a se levantar e a apresentou ao público: “Quero palmas pra dona Orlandina de Morais, um baluarte do nosso samba!” Após ajeitar a saia, que subiu até o pescoço (a lamentável visão me perseguiu durante meses), a veterana sambista sentou-se à mesa que estava preparada para receber também os demais convidados. Aos poucos, fomos apresentados e nos acomodando. A loira era Rita Cavanhaque, modelo e a atriz que aguardava convite para um novo trabalho (o último tinha sido o pornô “A Princesa e o Jumento”); o bonitão era Roberto Abílio, galã da Rede Vida (protagonista das novelas Tormenta de Uma Paixão e Diário de um Corno); o velho era o doutor Felipe Nistorto, autor do premiado livro de bolso Posições Sexuais para Anões; enquanto o filé de borboleta era o MC Ferrô, autor do funk da Mulher Banana. Como a mesa só tinha lugar pra seis, o grupo de pagode Suvaco do Tigre ficou em pé, ao lado do bar.
Bem, é importante ressaltar que o ar condicionado estava quebrado e o calor naquele lugar era infernal. Com o samba rolando solto, o programa seguia. Nós, os convidados, éramos servidos por um garçom, que a todo instante nos trazia salgadinhos e cerveja temperatura ambiente (o anunciante Cervatecatá doava os engradados). Tudo caminhava razoavelmente bem até eu ter a infeliz idéia de experimentar a empadinha. O Roberto Abílio ainda me avisou: “Vai não!” Sem dar atenção ao conselho, coloquei na boca o salgado e comecei a mastigar. Resolvi beber um gole da cerveja pra dar uma facilitada no processo. Depois de uns oito minutos tentando engolir, eu comecei a perder o ar. Foi aí que, inadvertidamente, o apresentador anunciou: “E aí Spider, e os projetos? Diz alguma coisa! Só se for agora!”. Neste instante, todas as câmeras se voltaram para mim à espera de uma resposta. Com a boca entupida e sem conseguir respirar, só me restou abraçar o apresentador e olhá-lo nos olhos. Felizmente, ele percebeu que eu não me encontrava muito bem e contornou a situação: “Bem, vejo que nosso herói está um pouco emocionado! Depois eu volto com você, Spider! Só se for agora!”.
Consegui me sentar e, ao bater a bunda na cadeira de ferro, consegui, com a ajuda do Senhor, engolir a maçaroca. Aliviado, avisei ao contra-regra que precisava ir ao banheiro lavar o rosto (minha máscara estava toda babada), e fui saindo de gatinho para que as câmeras não me filmassem. No entanto, não consegui me limpar, pois ao abrir a porta do banheiro dei de cara com a dona Orlandina sentada no vaso. Paralisado com a visão do inferno, ouvi a veterana sambista me confidenciar: “Exagerei nos cocrete!”.
Em estado de choque, voltei para o estúdio e sentei novamente à mesa. Sem alternativas, busquei me descontrair com o sambão que estava rolando. Ao olhar pro sexólogo, saquei que ele não parava de manjar as pernas de Rita Cavanhaque, que lutava ferozmente para tirar um osso de coxinha que insistia em permanecer entre os seus dentes. Aquilo me deu um arrepio e tentei me distrair comendo um rissole que sobrara no prato. Após finalizar o salgadinho, fiquei sem saber o que fazer com o caroço da azeitona. Neste instante, me lembrei da minha infância em Quissamanduca, época em que eu era o rei do peteleco. Então, não tive dúvidas: coloquei o caroço na mesa, preparei o dedo, mirei no corredor e mandei bala. Mas o tempo de criança passou e eu não era mais o mesmo. Sem a prática de antes, errei a direção e acertei em cheio a testa do apresentador. A porrada foi tão forte, que derrubou o cara. Ele se levantou com a ajuda das sambates (as mulatas que dançavam no programa) e, injuriado, bradou: “Porra, isso é sacanagem! Quem foi o safado?” Um silêncio tomou conta do local. Daí, um cara gritou: “Chama os comerciais!”. Durante as propagandas, Jabbá foi consolado por uma assessora e se acalmou um pouco. Com a marca da caroçada na testa, o apresentador retomou as rédeas do programa.
Mais relaxado, e meio calibrado pela Cervatecatá quente, fui entrando no clima e já estava me engraçando com uma das sambetes. Aí, Jabbá veio novamente: “Spider tá no clima! Agora, Valeska Jamelão vai fazer um show pra ele! Vem cá, minha deusa! Só se for agora!” E de trás das sambetes veio surgindo uma mulataça espetacular, de uns dois metros de altura. Ela veio gingando e me manjando. Chegou na minha frente, virou de costas e começou a rebolar freneticamente. Hipnotizado pela buzanfa descomunal, tive de me segurar na mesa para não cair (a roupa colada tava entregando meu estado). Nessa hora, o MC Ferrô mandou: “Tá dando bandeira, Spider! Vai que é tua, Taffarel!” Foi aí que Valeskão virou de frente e abriu os braços. O que aconteceu a seguir foi indescritível. Sem que eu pudesse esperar, o doutor Felipe colocou um dos seus pés na minha bunda e me empurrou em direção da mulata. A moça, que estava sambando direto a umas três horas, chegava a brilhar (me lembro de ter visto meu reflexo na barriga dela), ampliou o sorriso e sussurrou: “Vem, garoto!”. A última cena que me lembro foi do momento exato em que ela me abraçou. Como ela era bem mais alta que eu, meu rosto foi direto para perto de um dos seios e o nariz acabou colado na axila direita. Eu me recordo bem que, neste instante, me veio à mente o nome do grupo de pagode. Essas foram as últimas lembranças do Samba Show. Quando recobrei os sentidos, estava tomando soro em um posto de saúde. Meu assessor me disse que, após meu desmaio, dois seguranças entraram em cena e me arrastaram para um depósito, que eles chamavam de camarim. Como eu não dizia coisa com coisa, Panzilão achou por bem me levar a um hospital. Felizmente, o soro fez efeito rápido (em pouco mais de dez horas eu já tinha voltado à vida) e pude retornar pra casa. Sinceramente, nem me preocupava mais com minha imagem. O que importava pra mim e que, mais uma vez, eu vencera novo perigo e estava vivo.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Capítulo 20: Nota Triste de uma Trajetória Gloriosa
Nem só de momentos vitoriosos é ilustrada a história de um super-herói. Algumas vezes, a coragem desmedida e a vontade de salvar uma pessoa indefesa não são suficientes para o sucesso de uma missão. Como estou relatando momentos marcantes da minha história, chegou a hora de, com pesar, revelar-lhes um episódio lamentável, que marcou por longo tempo as vidas da população de Santa Cruz.
Em uma bela tarde de domingo, quando as ruas do bairro estavam repletas em função do estonteante sol que cobria toda a zona oeste carioca, estava eu solitário em meus aposentos na pensão do Vasco jogando par ou ímpar (treinava para uma eventualidade) quando Manuel Stalone, o segurança da rua, entrou na recepção aos berros: “Meu Deus, o Valdemar subiu! O Valdemar subiu!”. Sem ter idéia do que se passava, me preparei para descer correndo as escadas (na pressa de chegar, pisei em um carrinho de brinquedo que estava próximo ao primeiro degrau e saí rolando até onde estava a rapaziada) e me encontrei com o pessoal, que se assustou um pouco com o esporro de quando derrubei a mesa do porteiro (ele foi parar abraçado comigo no chão). Após ajudar Severino a encontrar os óculos (voaram longe após o impacto), fiquei sabendo do que se passava com Valdemar do Gás, um português que há muito tempo morava na área e, desde sua adolescência, sofria com uma infernal prisão de ventre. Sua amada esposa, dona Emengarda Quitéria, revelara que o marido vivia um verdadeiro inferno (o pobre não soltava um mísero punzinho havia mais de 15 anos). Então, o acúmulo de gases nas entranhas fez a barriga do patrício inchar tanto que ele decolou feito um balão de festa infantil.
O desespero tomou conta de todos, preocupados com o paradeiro de Valdemar. O prestimoso Stalone veio correndo avisar que o português, sagaz como ele só, conseguira se agarrar em uma parte da estátua de dom Juan González De La Pemba, colonizador peruano e primeiro habitante de Santa Cruz (o sobrenome do histórico personagem foi uma homenagem dos índios, que o rebatizaram após o verem nu pela primeira vez). Não há necessidade de revelar que, para evitar uma viagem indesejável a Júpter, Valdemar abraçou a genitália da réplica de dom Juan. O monumento (a estátua) ficava na praça, e uma verdadeira multidão acompanhava, apreensiva, o drama do imigrante luso. Ao imaginar a agonia daquele infeliz, subi rapidamente até meu quarto, vesti minha roupa de Spider e parti para o evento, quer dizer acontecimento. Ao chegar, fui recebido com aplausos pela população, que pedia para que eu salvasse o coitado.
Eu tinha de agir imediatamente, pois Valdemar, já sem forças, não conseguia mais manter aquela peça roliça entre as mãos, e gritava desesperadamente: “Ai, Jesus!. Comovido, imediatamente lancei minhas teias e parti feroz para o braço esquerdo da estátua. Minha ação teria de ser rápida e precisa, pois um movimento em falso faria Valdemar seguir rumo à Via Láctea. Joguei minha teia em direção ao chafariz do parquinho e, tal como o Tarzan, segui de encontro ao português. Consegui agarrá-lo e, com muita técnica, coloquei-o deitado no chão, de barriga para cima.
Antes que o povo chegasse para me aclamar, prendi o galego no banco da praça e saltei rumo à marquise do prédio mais próximo a fim de que eu pudesse me retirar do local em grande estilo. Porém foi aí, meus amigos, que se deu a tragédia, inesquecível para a população de Santa Cruz. Ao voar para a glória, eu nem imaginava o que o destino me reservara: o buraquinho que ejeta teias entupiu e eu despenquei de uma altura de doze andares. Meus olhos tiveram poucos instantes para observar que o impacto seria justamente contra a barriga gigante de Valdemar do Gás. O que ocorreu a seguir foi uma desgraça tamanha, que ainda me emociono até hoje. Ao me chocar com aquele tonel, uma explosão ecoou por toda a região (deu no Jornal Nacional que o barulho foi ouvido no norte de Goiás). Os gases acumulados durante anos na barriga do português escaparam naquele momento. Era gente correndo pra todos os lados. Homens, mulheres, crianças, velhos, todos procuravam, em vão, se proteger do peido atômico disparado pelo coitado (até Gumercindo Piquet, um pedinte que só andava por meio de uma cadeira de rodas, largou seu meio de transporte e partiu correndo rumo ao desconhecido).
Santa Cruz só voltou ao normal seis meses depois, quando começou a fazer efeito a composição química lançada pela força conjunta, formada pelos bravos bombeiros da Defesa Civil e os integrantes da SWAT, que interditaram a zona oeste do Rio até que a combinação de amônia/creolina/água sanitária/criptonita substituísse o futum desgraçado que tomou conta da Cidade Maravilhosa.
É importante ressaltar que aquela foi a última vez em que o Spider agiu no bairro, pois a população, ressentida com o episódio, queria linchar o glorioso herói que, vítima do destino, acabou sendo o responsável por toda aquela desgraça.
Em uma bela tarde de domingo, quando as ruas do bairro estavam repletas em função do estonteante sol que cobria toda a zona oeste carioca, estava eu solitário em meus aposentos na pensão do Vasco jogando par ou ímpar (treinava para uma eventualidade) quando Manuel Stalone, o segurança da rua, entrou na recepção aos berros: “Meu Deus, o Valdemar subiu! O Valdemar subiu!”. Sem ter idéia do que se passava, me preparei para descer correndo as escadas (na pressa de chegar, pisei em um carrinho de brinquedo que estava próximo ao primeiro degrau e saí rolando até onde estava a rapaziada) e me encontrei com o pessoal, que se assustou um pouco com o esporro de quando derrubei a mesa do porteiro (ele foi parar abraçado comigo no chão). Após ajudar Severino a encontrar os óculos (voaram longe após o impacto), fiquei sabendo do que se passava com Valdemar do Gás, um português que há muito tempo morava na área e, desde sua adolescência, sofria com uma infernal prisão de ventre. Sua amada esposa, dona Emengarda Quitéria, revelara que o marido vivia um verdadeiro inferno (o pobre não soltava um mísero punzinho havia mais de 15 anos). Então, o acúmulo de gases nas entranhas fez a barriga do patrício inchar tanto que ele decolou feito um balão de festa infantil.
O desespero tomou conta de todos, preocupados com o paradeiro de Valdemar. O prestimoso Stalone veio correndo avisar que o português, sagaz como ele só, conseguira se agarrar em uma parte da estátua de dom Juan González De La Pemba, colonizador peruano e primeiro habitante de Santa Cruz (o sobrenome do histórico personagem foi uma homenagem dos índios, que o rebatizaram após o verem nu pela primeira vez). Não há necessidade de revelar que, para evitar uma viagem indesejável a Júpter, Valdemar abraçou a genitália da réplica de dom Juan. O monumento (a estátua) ficava na praça, e uma verdadeira multidão acompanhava, apreensiva, o drama do imigrante luso. Ao imaginar a agonia daquele infeliz, subi rapidamente até meu quarto, vesti minha roupa de Spider e parti para o evento, quer dizer acontecimento. Ao chegar, fui recebido com aplausos pela população, que pedia para que eu salvasse o coitado.
Eu tinha de agir imediatamente, pois Valdemar, já sem forças, não conseguia mais manter aquela peça roliça entre as mãos, e gritava desesperadamente: “Ai, Jesus!. Comovido, imediatamente lancei minhas teias e parti feroz para o braço esquerdo da estátua. Minha ação teria de ser rápida e precisa, pois um movimento em falso faria Valdemar seguir rumo à Via Láctea. Joguei minha teia em direção ao chafariz do parquinho e, tal como o Tarzan, segui de encontro ao português. Consegui agarrá-lo e, com muita técnica, coloquei-o deitado no chão, de barriga para cima.
Antes que o povo chegasse para me aclamar, prendi o galego no banco da praça e saltei rumo à marquise do prédio mais próximo a fim de que eu pudesse me retirar do local em grande estilo. Porém foi aí, meus amigos, que se deu a tragédia, inesquecível para a população de Santa Cruz. Ao voar para a glória, eu nem imaginava o que o destino me reservara: o buraquinho que ejeta teias entupiu e eu despenquei de uma altura de doze andares. Meus olhos tiveram poucos instantes para observar que o impacto seria justamente contra a barriga gigante de Valdemar do Gás. O que ocorreu a seguir foi uma desgraça tamanha, que ainda me emociono até hoje. Ao me chocar com aquele tonel, uma explosão ecoou por toda a região (deu no Jornal Nacional que o barulho foi ouvido no norte de Goiás). Os gases acumulados durante anos na barriga do português escaparam naquele momento. Era gente correndo pra todos os lados. Homens, mulheres, crianças, velhos, todos procuravam, em vão, se proteger do peido atômico disparado pelo coitado (até Gumercindo Piquet, um pedinte que só andava por meio de uma cadeira de rodas, largou seu meio de transporte e partiu correndo rumo ao desconhecido).
Santa Cruz só voltou ao normal seis meses depois, quando começou a fazer efeito a composição química lançada pela força conjunta, formada pelos bravos bombeiros da Defesa Civil e os integrantes da SWAT, que interditaram a zona oeste do Rio até que a combinação de amônia/creolina/água sanitária/criptonita substituísse o futum desgraçado que tomou conta da Cidade Maravilhosa.
É importante ressaltar que aquela foi a última vez em que o Spider agiu no bairro, pois a população, ressentida com o episódio, queria linchar o glorioso herói que, vítima do destino, acabou sendo o responsável por toda aquela desgraça.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Capítulo 19: Duelo de Titãs
Em minha heróica saga como super-herói destemido, enfrentei vários rivais perigosos e implacáveis. Por isso, hoje resolvi contar um momento especial, que me forçou a demonstrar toda a coragem que levo dentro de mim a fim de cumprir, mesmo com todas as adversidades, uma missão quase impossível: sobreviver.
Numa bela noite de outono, estava solitário em meu quarto na pensão do Vasco quando ouvi gritos histéricos vindo do prédio da frente. Imediatamente, me dirigi à janela e, para minha surpresa, vi que o desespero partia do apartamento de uma morena espetacular que embalava meus sonhos na época (toda vez em que ela ia trocar de roupa eu me escondia atrás da cortina e só manjava ela pelada). Com uma vassoura nas mãos, a bela moça gritava: “Ai, meu Deus! Sai, sai daqui!”. Depois de ver aquela cena, imediatamente coloquei minha clássica roupa e, resoluto, parti em direção ao local para evitar que minha deusa fosse agredida pelo ladrão ou até mesmo estuprada pelo malfeitor. Com minha habitual velocidade, invadi a janela da residência da morenaça indefesa. A recepção, no entanto, não foi a que eu imaginava. Levei uma vassourada nos córneos que quase me fez despencar do sétimo andar. Ainda meio tonto com a porrada, vi a gatinha deixar correndo o apartamento e trancar a porta, gritando feito uma doida pelo corredor.
Rapidamente (dentro do possível, porque ainda estava meio grogue), me coloquei em posição de defesa aguardando o ataque do bandido. No entanto, percebi que não havia ninguém naquele quarto. Ledo engano. Sem entender bem o que estava ocorrendo, caminhei lentamente pelo local a fim de desvendar a causa de tanto desespero daquela morena fantástica. Até que, finalmente, avistei, encostado ao rodapé, o motivo de tamanho terror: uma barata. Quer dizer, um animal que nasceu como uma barata e se transformou em um ser descomunal. Confesso que aquela visão provocou um grito da minha parte. É importante ressaltar que aranhas e baratas não são propriamente espécimes amigas, portanto um clima de tensão tomou conta daquele recinto. Tenho que admitir que, por alguns segundos, fiquei paralisado e completamente arrepiado. Não pensem que se trata de algum tipo de medo; é puro respeito. O animal, que mais parecia um chinelo marrom, me olhava fixamente. Em uma reação rápida, busquei uma saída estratégica, mas esbarrei na porta trancada. Pensei em sair pela janela, mas lembrei que aquele animal poderia aterrorizar a população do planeta. Fazendo-me valer de minha coragem incontestável, resolvi enfrentar o monstro que permanecia estático no canto do quarto. Decidi me precaver e busquei a vassoura a qual fui apresentado logo em minha entrada. Encontrei metade dela (a outra parte voou pela janela). Com a agilidade de um ninja, peguei o pedaço que avistei (para minha sorte, o que tinha a piaçava) e me posicionei diante do animal, evidentemente a uma distância segura. Olhando no olho do bicho, armei-me em posição de ataque. Neste instante, ouvi o rosnado daquela criatura. O arrepio tomou conta de meu corpo novamente e, antes que eu pudesse colocar em prática a estratégia, a barata decolou em minha direção. Pego de surpresa, joguei o cotoco de vassoura pro alto e me atirei no chão, Senti aquele troço passar rente à minha cabeça, sobrevoando o local. Parecia um boing 747. A criatura grudou na parede, como se fosse um quadro de bronze. Procurei o que restava da vassoura e não avistei. Ainda deitado e meio me fingindo de morto (uma técnica milenar que utilizo em alguns momentos críticos), procurei encontrar algo que pudesse me auxiliar naquele embate. O ideal seria um lança-chamas ou um morteiro, mas o que encontrei mais próximo de mim foi um jarro de flores (tinha a cama, mas achei que estava meio longe). Rastejando lentamente pelo chão, aproximei-me do jarro e, com uma velocidade espantosa, arremessei o objeto na direção do terrível animal. O que se seguiu foi inacreditável: a barata se empinou, matou o jarro nos peitos e emendou de volta. A reação daquele bicho traiçoeiro me surpreendeu tanto que não tive tempo de me proteger. A última visão que tive do jarro foi a cerca de uns dois dedos da minha cara. Confesso que não ouvi o barulho, mas os cacos daquele negócio ficaram dias grudados na minha máscara (com o impacto inevitável, engoli um dos caninos).
Após o contragolpe daquele animal medonho, não tive dúvidas: a coisa era realmente séria. Lentamente, a barata gigante foi descendo. O barulho das patas arrastando pela parede me fez pensar em abandonar de vez o local, mas eu não poderia deixar a humanidade ficar à mercê daquela criatura. De repente, ouvi um barulho no trinco da porta. Senti que aquele poderia ser um momento importante, como a chegada de um aliado, e gritei: Abre logo, porra! Lá de fora veio o diálogo: “Desculpe, dona Solange, mas além da barata tem mais alguém lá dentro?, perguntou uma voz com sotaque nordestino. “Claro que não, Severino! Entra logo aí e mata a danada!”, foi a resposta. Neste instante, me aproximei da maçaneta para dar uma ajuda ao moço, porém, quando estava em frente à porta, a mesma se abriu. Mal tive tempo de abrir a boca: fui ganhando vassourada de tudo que era jeito. O povo gritava: “Mata! Mata!”. Uma velha berrou: A bicha é vermelha! Pau nela!”. Fui levando porrada de tudo que era jeito até eu despencar pela janela. A queda foi rápida, coisa de dois segundos. Pra minha sorte, bati num toldo (que veio junto) e numa árvore (o que amorteceu o estabaco), até cair em cima da barraca de um gordão que vendia pamonha. Meio avariado, tentava me levantar quando ouvi aquela velha safada gritar: “A barata ainda está se mexendo! Taca fogo! Foi aí que, retirando forças nem sei de onde, me levantei e, mesmo todo arrebentado, saí correndo, ferido, porém vivo.
Numa bela noite de outono, estava solitário em meu quarto na pensão do Vasco quando ouvi gritos histéricos vindo do prédio da frente. Imediatamente, me dirigi à janela e, para minha surpresa, vi que o desespero partia do apartamento de uma morena espetacular que embalava meus sonhos na época (toda vez em que ela ia trocar de roupa eu me escondia atrás da cortina e só manjava ela pelada). Com uma vassoura nas mãos, a bela moça gritava: “Ai, meu Deus! Sai, sai daqui!”. Depois de ver aquela cena, imediatamente coloquei minha clássica roupa e, resoluto, parti em direção ao local para evitar que minha deusa fosse agredida pelo ladrão ou até mesmo estuprada pelo malfeitor. Com minha habitual velocidade, invadi a janela da residência da morenaça indefesa. A recepção, no entanto, não foi a que eu imaginava. Levei uma vassourada nos córneos que quase me fez despencar do sétimo andar. Ainda meio tonto com a porrada, vi a gatinha deixar correndo o apartamento e trancar a porta, gritando feito uma doida pelo corredor.
Rapidamente (dentro do possível, porque ainda estava meio grogue), me coloquei em posição de defesa aguardando o ataque do bandido. No entanto, percebi que não havia ninguém naquele quarto. Ledo engano. Sem entender bem o que estava ocorrendo, caminhei lentamente pelo local a fim de desvendar a causa de tanto desespero daquela morena fantástica. Até que, finalmente, avistei, encostado ao rodapé, o motivo de tamanho terror: uma barata. Quer dizer, um animal que nasceu como uma barata e se transformou em um ser descomunal. Confesso que aquela visão provocou um grito da minha parte. É importante ressaltar que aranhas e baratas não são propriamente espécimes amigas, portanto um clima de tensão tomou conta daquele recinto. Tenho que admitir que, por alguns segundos, fiquei paralisado e completamente arrepiado. Não pensem que se trata de algum tipo de medo; é puro respeito. O animal, que mais parecia um chinelo marrom, me olhava fixamente. Em uma reação rápida, busquei uma saída estratégica, mas esbarrei na porta trancada. Pensei em sair pela janela, mas lembrei que aquele animal poderia aterrorizar a população do planeta. Fazendo-me valer de minha coragem incontestável, resolvi enfrentar o monstro que permanecia estático no canto do quarto. Decidi me precaver e busquei a vassoura a qual fui apresentado logo em minha entrada. Encontrei metade dela (a outra parte voou pela janela). Com a agilidade de um ninja, peguei o pedaço que avistei (para minha sorte, o que tinha a piaçava) e me posicionei diante do animal, evidentemente a uma distância segura. Olhando no olho do bicho, armei-me em posição de ataque. Neste instante, ouvi o rosnado daquela criatura. O arrepio tomou conta de meu corpo novamente e, antes que eu pudesse colocar em prática a estratégia, a barata decolou em minha direção. Pego de surpresa, joguei o cotoco de vassoura pro alto e me atirei no chão, Senti aquele troço passar rente à minha cabeça, sobrevoando o local. Parecia um boing 747. A criatura grudou na parede, como se fosse um quadro de bronze. Procurei o que restava da vassoura e não avistei. Ainda deitado e meio me fingindo de morto (uma técnica milenar que utilizo em alguns momentos críticos), procurei encontrar algo que pudesse me auxiliar naquele embate. O ideal seria um lança-chamas ou um morteiro, mas o que encontrei mais próximo de mim foi um jarro de flores (tinha a cama, mas achei que estava meio longe). Rastejando lentamente pelo chão, aproximei-me do jarro e, com uma velocidade espantosa, arremessei o objeto na direção do terrível animal. O que se seguiu foi inacreditável: a barata se empinou, matou o jarro nos peitos e emendou de volta. A reação daquele bicho traiçoeiro me surpreendeu tanto que não tive tempo de me proteger. A última visão que tive do jarro foi a cerca de uns dois dedos da minha cara. Confesso que não ouvi o barulho, mas os cacos daquele negócio ficaram dias grudados na minha máscara (com o impacto inevitável, engoli um dos caninos).
Após o contragolpe daquele animal medonho, não tive dúvidas: a coisa era realmente séria. Lentamente, a barata gigante foi descendo. O barulho das patas arrastando pela parede me fez pensar em abandonar de vez o local, mas eu não poderia deixar a humanidade ficar à mercê daquela criatura. De repente, ouvi um barulho no trinco da porta. Senti que aquele poderia ser um momento importante, como a chegada de um aliado, e gritei: Abre logo, porra! Lá de fora veio o diálogo: “Desculpe, dona Solange, mas além da barata tem mais alguém lá dentro?, perguntou uma voz com sotaque nordestino. “Claro que não, Severino! Entra logo aí e mata a danada!”, foi a resposta. Neste instante, me aproximei da maçaneta para dar uma ajuda ao moço, porém, quando estava em frente à porta, a mesma se abriu. Mal tive tempo de abrir a boca: fui ganhando vassourada de tudo que era jeito. O povo gritava: “Mata! Mata!”. Uma velha berrou: A bicha é vermelha! Pau nela!”. Fui levando porrada de tudo que era jeito até eu despencar pela janela. A queda foi rápida, coisa de dois segundos. Pra minha sorte, bati num toldo (que veio junto) e numa árvore (o que amorteceu o estabaco), até cair em cima da barraca de um gordão que vendia pamonha. Meio avariado, tentava me levantar quando ouvi aquela velha safada gritar: “A barata ainda está se mexendo! Taca fogo! Foi aí que, retirando forças nem sei de onde, me levantei e, mesmo todo arrebentado, saí correndo, ferido, porém vivo.
domingo, 15 de junho de 2008
Capítulo 18: Reverência a um herói esquecido
Realmente eu entendo porque sou adorado por milhões de pessoas no mundo. Todos precisam de uma referência para se espelhar e, quem sabe, um dia alcançar sua magnitude. Comigo não é diferente. Antes de ser um super-herói indestrutível, gostoso e sarado, sou uma pessoa com todas as características de um ser humano qualquer. Assim como vocês, que me adoram, também possuo um ídolo, este que merecia notoriedade tão intensa quanto a dos meus amigos Super-Man, Batman, Hulk, The Flash e Mulher Melancia. Trata-se de uma figura lendária em Quissamanduca: Setembrino Buscapé, um autêntico Highlander em toda região.
Filho de família humilde, Sete (por uma dessas coincidências inacreditáveis, a contração do nome era o números de dentes que meu herói tinha na boca) sempre teve de se virar para conseguir ajudar no sustento de casa. Seu pai, Justino Simandei, foi tomado de um mal súbito e abandonou a família assim que Setembrino nasceu. Dizem que ao ter o filho pela primeira em seus braços, seu Justino, sob o efeito do mal, tentou trocar o menino por três panelas e uma vassoura. Indignado com a proposta, o dono do armazém não topou: queria mais cinco pratas de forra.
Convivendo com a sensação de rejeição, Sete era um garoto solitário. Nós tentávamos nos aproximar, jogando um pouco de ração pra ele, mas quando se virava para nós, não ficava um pra contar história. Mesmo assim, eu admirava sua perseverança e força de vontade. Ele era uma pessoa capaz de se reerguer após as mais complicadas adversidades. Logo em seu primeiro emprego, deu provas de tamanha tenacidade e resistência. Era sub-assistente auxiliar de servente em um prédio no centro da cidade. Foi nesta atividade que, pela primeira vez, viu a morte de perto. Escalado para a função de eletricista, Setembrino deveria instalar a luminária da torre, que ficava a uma altura de 78 metros do árido solo de Quissamanduca. Colocado em uma catapulta, foi arremessado em direção ao alvo (devido à sua reconhecida rapidez, Sete teria de colocar a lâmpada gigante na tomada enquanto estivesse sobrevoando o local. Foi antes do lançamento que ele ganhou o apelido de Buscapé). Porém, como o cálculo não foi muito preciso, meu herói da infância passou dois quilômetros do desejado e foi parar no rio Paraguaçuá, conhecido por ser reduto de perigosos tubarões sanguinários (são os únicos no mundo que vivem em água doce). Após uma hora e meia lutando contra os predadores (ele contou 32), conseguiu escapar para espanto dos companheiros que, inexplicavelmente, promoviam uma festa de arromba quando ele retornou. Protegido por Deus, Setembrino sofreu apenas escoriações pelo corpo, porém perdeu as calças e um pedaço do órgão genital que foi encontrado uma semana depois boiando na margem do rio (inicialmente, os pescadores acreditavam ser uma espécie de peixe rola). Refeito do infortúnio, Sete ainda sofreria novo golpe ao retornar ao trabalho no dia seguinte. Fora demitido pelo tirano chefe de obras, Aderbal de Decana, que não se conformou com o fato de a tarefa não ter sido cumprida.
Necessitando muito de trabalho para ajudar sua mãe e os 18 irmãos menores, Setembrino foi atrás de novo emprego e, graças ao bom coração de seu Venério, dono do frigorífico da cidade, conseguiu novo trampo. Seria segurança. Preocupado com a onda de assaltos que assolava Quissamanduca (em menos de uma semana, já tinham sido roubadas duas latas de lixo, uma placa de Proibido Mijar no Poste e uma tampa de bueiro), Venério resolveu colocar alguém 24 horas tomando conta das carnes, e incumbiu Sete de fiscalizar a carga. A tarefa não era das mais árduas, o problemas mesmo era suportar os 45 graus abaixo de zero da câmara frigorífica. Zeloso com a saúde de seu novo empregado, seu Venério providenciou um gorro e uma camisa de mangas compridas (tinha um pequeno rombo na altura da axila direita). Competente ao extremo, Setembrino cumpriu a risca sua função, permanecendo por seis dias e seis noites em seu posto. Após trabalhar de segunda a sábado, ele folgaria no domingo. Folgaria, porque como ficou congelado, teve de passar o descanso sob forte processo de derretimento.
Eu poderia passar horas lembrando momentos inesquecíveis do esquecido grande herói, mas terminarei relatando o feito titânico que praticou, o maior de todos. Em uma bela tarde de sol, que fazia Quissamanduca parecer o Sudão, Setembrino ajudava a catar piolhos na cabecinha juvenil de seu irmão caçula, Da Cu (era pra ser Da Cunha, mas o escrivão passou mal na hora que anotava e faleceu. Com a confusão do ocorrido, ninguém se ligou que ainda faltava uma sílaba), quando viu sua avó cega, a doce Rosenalva, andando em direção à fossa, que estava a um metro dos pés cansados da pobre velhinha. Em uma atitude só comum aos seres iluminados, Sete partiu como uma flecha em direção à sua vovó e, a um passo da vala de excrementos, empurrou a senhora, salvando-a de uma tragédia maior. No entanto, Setembrino não contava com a infelicidade de escorregar no chão sebento do local e, perdendo o rumo, mergulhou de cabeça no buraco cheio de cocô, com uns três metros de profundidade. A apreensão tomou conta de todos. Primeiro, porque ao salvar sua avó, Sete acabou utilizando força excessiva, a velhinha saiu catando cavaco e despencou a ribanceira; e depois com a saúde do herói. Porém, cerca de dois minutos depois, para espanto de todos, eis que ele surge imponente das profundezas daquele poço de merda. Deste dia em diante, Setembrino Buscapé passou à imortalidade para todos os habitantes, vivos e mortos, de Quissamanduca Town. Toda vez que tosse, cospe um toletinho de cocô. Mais de trinta anos depois, Sete ainda segue carrega consigo lembranças daquele episódio. Toda vez que tosse, cospe um toletinho de cocô.
Filho de família humilde, Sete (por uma dessas coincidências inacreditáveis, a contração do nome era o números de dentes que meu herói tinha na boca) sempre teve de se virar para conseguir ajudar no sustento de casa. Seu pai, Justino Simandei, foi tomado de um mal súbito e abandonou a família assim que Setembrino nasceu. Dizem que ao ter o filho pela primeira em seus braços, seu Justino, sob o efeito do mal, tentou trocar o menino por três panelas e uma vassoura. Indignado com a proposta, o dono do armazém não topou: queria mais cinco pratas de forra.
Convivendo com a sensação de rejeição, Sete era um garoto solitário. Nós tentávamos nos aproximar, jogando um pouco de ração pra ele, mas quando se virava para nós, não ficava um pra contar história. Mesmo assim, eu admirava sua perseverança e força de vontade. Ele era uma pessoa capaz de se reerguer após as mais complicadas adversidades. Logo em seu primeiro emprego, deu provas de tamanha tenacidade e resistência. Era sub-assistente auxiliar de servente em um prédio no centro da cidade. Foi nesta atividade que, pela primeira vez, viu a morte de perto. Escalado para a função de eletricista, Setembrino deveria instalar a luminária da torre, que ficava a uma altura de 78 metros do árido solo de Quissamanduca. Colocado em uma catapulta, foi arremessado em direção ao alvo (devido à sua reconhecida rapidez, Sete teria de colocar a lâmpada gigante na tomada enquanto estivesse sobrevoando o local. Foi antes do lançamento que ele ganhou o apelido de Buscapé). Porém, como o cálculo não foi muito preciso, meu herói da infância passou dois quilômetros do desejado e foi parar no rio Paraguaçuá, conhecido por ser reduto de perigosos tubarões sanguinários (são os únicos no mundo que vivem em água doce). Após uma hora e meia lutando contra os predadores (ele contou 32), conseguiu escapar para espanto dos companheiros que, inexplicavelmente, promoviam uma festa de arromba quando ele retornou. Protegido por Deus, Setembrino sofreu apenas escoriações pelo corpo, porém perdeu as calças e um pedaço do órgão genital que foi encontrado uma semana depois boiando na margem do rio (inicialmente, os pescadores acreditavam ser uma espécie de peixe rola). Refeito do infortúnio, Sete ainda sofreria novo golpe ao retornar ao trabalho no dia seguinte. Fora demitido pelo tirano chefe de obras, Aderbal de Decana, que não se conformou com o fato de a tarefa não ter sido cumprida.
Necessitando muito de trabalho para ajudar sua mãe e os 18 irmãos menores, Setembrino foi atrás de novo emprego e, graças ao bom coração de seu Venério, dono do frigorífico da cidade, conseguiu novo trampo. Seria segurança. Preocupado com a onda de assaltos que assolava Quissamanduca (em menos de uma semana, já tinham sido roubadas duas latas de lixo, uma placa de Proibido Mijar no Poste e uma tampa de bueiro), Venério resolveu colocar alguém 24 horas tomando conta das carnes, e incumbiu Sete de fiscalizar a carga. A tarefa não era das mais árduas, o problemas mesmo era suportar os 45 graus abaixo de zero da câmara frigorífica. Zeloso com a saúde de seu novo empregado, seu Venério providenciou um gorro e uma camisa de mangas compridas (tinha um pequeno rombo na altura da axila direita). Competente ao extremo, Setembrino cumpriu a risca sua função, permanecendo por seis dias e seis noites em seu posto. Após trabalhar de segunda a sábado, ele folgaria no domingo. Folgaria, porque como ficou congelado, teve de passar o descanso sob forte processo de derretimento.
Eu poderia passar horas lembrando momentos inesquecíveis do esquecido grande herói, mas terminarei relatando o feito titânico que praticou, o maior de todos. Em uma bela tarde de sol, que fazia Quissamanduca parecer o Sudão, Setembrino ajudava a catar piolhos na cabecinha juvenil de seu irmão caçula, Da Cu (era pra ser Da Cunha, mas o escrivão passou mal na hora que anotava e faleceu. Com a confusão do ocorrido, ninguém se ligou que ainda faltava uma sílaba), quando viu sua avó cega, a doce Rosenalva, andando em direção à fossa, que estava a um metro dos pés cansados da pobre velhinha. Em uma atitude só comum aos seres iluminados, Sete partiu como uma flecha em direção à sua vovó e, a um passo da vala de excrementos, empurrou a senhora, salvando-a de uma tragédia maior. No entanto, Setembrino não contava com a infelicidade de escorregar no chão sebento do local e, perdendo o rumo, mergulhou de cabeça no buraco cheio de cocô, com uns três metros de profundidade. A apreensão tomou conta de todos. Primeiro, porque ao salvar sua avó, Sete acabou utilizando força excessiva, a velhinha saiu catando cavaco e despencou a ribanceira; e depois com a saúde do herói. Porém, cerca de dois minutos depois, para espanto de todos, eis que ele surge imponente das profundezas daquele poço de merda. Deste dia em diante, Setembrino Buscapé passou à imortalidade para todos os habitantes, vivos e mortos, de Quissamanduca Town. Toda vez que tosse, cospe um toletinho de cocô. Mais de trinta anos depois, Sete ainda segue carrega consigo lembranças daquele episódio. Toda vez que tosse, cospe um toletinho de cocô.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Capítulo 17: O Perigo Ronda a Internet
Este dia 12 de junho é dedicado aos namorados. Em homenagem à data tão especial, resolvi revelar a vocês, meus adoradores queridos, uma de minhas aventuras mais perigosas em minha mítica missão na Terra. POR FAVOR, TIREM AS CRIANÇAS DA FRENTE DO COMPUTADOR!
Firme em meus propósitos de seguir solitário a jornada quase messiânica de salvar a humanidade, eu sentia, no entanto, uma necessidade de ter uma companhia feminina; nem que fosse para algumas partidas de porrinha (em alguns locais também conhecido como palitinho). Numa agradável noite de inverno (a queda da temperatura para 35 graus era convidativa a uma noite de loucuras com uma fêmea selvagem), encontrei os amigos no bar do Seu Senta para nossa tradicional roda semanal de Salto do Sputnik, uma mistura de Anthrax e coquetel Molotov que era disponibilizada com exclusividade no estabelecimento. O encontro era uma agradável disputa para ver quem seria o segundo a permanecer em pé após as diversas rodadas daquela combinação etílica. A briga era pelo vice, porque o caneco já tinha dono: Carlão da Mureta, ex-motorista da linha 666 (Santa Cruz-Boca do Inferno). O campeão, que ganhou o apelido por sempre dar uma porrada no muro quando deixava o ônibus na garagem da empresa (durante as viagens, ele mamava três pet de dois litros contendo um líquido amarelado não identificado. Quando foi demitido ao invadir com o coletivo o escritório do dono da companhia, as garrafinhas foram apreendidas pela polícia, mas o perito faleceu após abrir uma delas e ninguém mais se atreveu a sentir o cheiro do troço), sempre ainda está começando os trabalhos quando o segundo é retirado de maca do botequim.
Já estávamos na sexta rodada quando Zeca Fura Bolo (tinha o péssimo hábito de dar um cutucão na bunda de dona Raimunda, uma senhora afro-descendente que cozinhava para o bar e fazia a Mulher Melancia parecer a Mulher Azeitona) me contou que conheceu uma gata fantástica pela internet. Aquilo me intrigou e, ao mesmo tempo, reacendeu em mim a volúpia de macho viril, adormecida após o pé na bunda que recebi de Marcleide, minha ex-noiva. Zeca, então, me deu o endereço do site: http://www.vaiqueetuataffarel.com.br/.
Excitado com a possibilidade de encontrar um novo alguém, decidi encerrar minha participação na disputa (nesse dia, a segunda colocação ficou com padre Cícero que, doidão, comemorou a conquista ficando nu na porta do bar).
Parti feroz para a lan house do bairro, o Cyber Nética do Zé (sempre tinha umas promoções legais, como meia-hora grátis de acesso a uns sites de sacanagem). Me cadastrei com o nome de Spider Strong, dei minhas características e, menos de cinco minutos depois, recebi uma mensagem. A moça se identificava como Gata Solitária Sedenta. Aquilo, para mim, era um sinal dos céus me abrindo o caminho para uma jornada de luxúria. Começamos a trocar mensagens e, em pouco tempo, estávamos íntimos, apaixonados e excitadíssimos. Ela disse se chamar Rô e estaria me esperando no Pelancão de Ouro, a churrascaria mais popular de Santa Cruz (as especialidades da casa eram o ovo cozido na brasa e a picanha de Calango). Marquei o encontro e voltei resoluto para a pensão do Vasco com a intenção de dar uma reforçada no desodorante, aproveitando também para colocar minha roupa de Spider e trocar a cueca (eu estava com a mesma a quatro dias). Após umas três burrifadas de Avanço em cada axila (não acho suvaco uma palavra muito bonita) e já devidamente equipado com minha inconfundível vestimenta, incluindo a nova Zarbo (era uma imitação de Zorba que eu tinha comprado na feira; três pratas um pacote com cinco), segui para o local do encontro. Pontual, cheguei ao Pelancão na hora marcada: meia-noite.
Controlando a ansiedade, abri a porta da churrascaria e entrei. Havia muito pouca gente no local, somente quatro mesas ocupadas: um coroa dormindo com a cara no prato, uma família (a curtição das crianças era arremessar a cadeira de rodas, com o avô pilotando, de um lado pro outro do salão), um anão (quando eu entrei, ele estava subindo na cadeira e, por isso, só o vi depois de um tempo) e uma senhora de uns 80 anos que não parava de sorrir. Escolhi uma mesa no canto e fiquei aguardando a entrada da minha deusa. O tempo foi passando e nada da mulher chegar. A família foi embora, seguida do anão. Depois dois garçons acordaram o coroa, que partiu também (reparei que tinha duas batatas fritas coladas na testa). Só restamos eu a senhora sorridente. Quando eu já me preparava para ir embora, notei que a velha veio caminhando na minha direção. Olhei para trás para ver se eu estava sentado próximo à porta do banheiro feminino, mas a única coisa que tinha atrás era uma parede com um pôster do Campinense (glorioso time da Paraíba que o dono da churrascaria, torcedor fanático do novel clube, fazia questão de exibir). Então, aquela criatura parou em frente à minha mesa e sussurrou com uma voz de quem parecia estar morrendo: “Você é tímido, né, Strong?”. Fui tomado por um frio da cabeça aos pés, meu coração ficou acelerado e a boca secou. Ainda aturdido com aquela visão do inferno, acompanhei os movimentos da velha puxando a cadeira e sentando à minha frente. “Prazer, Romária! Você pode me chamar de Rô!”. Naquele momento, fiz uma reflexão profunda tentando lembrar o que eu tinha aprontado de perverso em minha infância. Alguma coisa muito feia eu tinha que ter feito para merecer aquilo.
Subitamente, me veio uma incontrolável vontade de chorar, mas, buscando uma força sobrenatural, resisti. Mas foi por pouco tempo. Vencendo minha resistência hercúlea, as lágrimas banharam meu rosto após a segunda intervenção daquela pessoa: “Você entra sempre no Vai Que É Tua Taffarel?”. Com a voz embargada, apelei àquela senhora: “Não faz isso não!”. Ainda com o sorriso no focinho (na realidade, a velha não estava rindo; era uma plástica tão esticada que fazia a boca da Elza Soares parecer com a da Angelina Jolie), aquilo chamou um garçom: “Qual o melhor conhaque da casa?”, pediu a velha. “Só tem o Salamandra”, respondeu o cara, que era igualzinho ao Luciano, aquele que fica na aba do Zezé di Camargo. Dona Romária olhou pra mim, piscou com o olho direito (por causa do botox o esquerdo foi junto) e ordenou ao garçom: “Então manda dois copos! Um pra mim e outro pro gato!” E ela ainda falou isso alto, pra todos os outros funcionários ouvirem. Foi nessa hora que me descontrolei. Dei-lhe uma porrada nos córneos, e a jaguatirica velha entrou por dentro da copa. Depois de ouvir o esporro de pratos caindo lá dentro, corri buscando a saída daquele lugar. Dois garçons se plantaram na minha frente tentando me impedir, mas nem imaginavam estar diante do verdadeiro e único Spider-Man: levei os dois com porta e tudo, e segui correndo até me perder pelas ruas escuras de Santa Cruz.
Dois dias depois, já refeito do susto, andava pelo calçadão de Madureira (fui aproveitar uma promoção de pilhas recicladas para poder acompanhar um jogo treino do Fogão contra um combinado de Engenheiro Pedreira) quando vi, pendurado em uma banca de jornal, a manchete do Meia-Hora: “ANCIÃ ENGOLE A DENTADURA APÓS SER ATACADA PELO HOMEM-ARANHA TARADO.
Firme em meus propósitos de seguir solitário a jornada quase messiânica de salvar a humanidade, eu sentia, no entanto, uma necessidade de ter uma companhia feminina; nem que fosse para algumas partidas de porrinha (em alguns locais também conhecido como palitinho). Numa agradável noite de inverno (a queda da temperatura para 35 graus era convidativa a uma noite de loucuras com uma fêmea selvagem), encontrei os amigos no bar do Seu Senta para nossa tradicional roda semanal de Salto do Sputnik, uma mistura de Anthrax e coquetel Molotov que era disponibilizada com exclusividade no estabelecimento. O encontro era uma agradável disputa para ver quem seria o segundo a permanecer em pé após as diversas rodadas daquela combinação etílica. A briga era pelo vice, porque o caneco já tinha dono: Carlão da Mureta, ex-motorista da linha 666 (Santa Cruz-Boca do Inferno). O campeão, que ganhou o apelido por sempre dar uma porrada no muro quando deixava o ônibus na garagem da empresa (durante as viagens, ele mamava três pet de dois litros contendo um líquido amarelado não identificado. Quando foi demitido ao invadir com o coletivo o escritório do dono da companhia, as garrafinhas foram apreendidas pela polícia, mas o perito faleceu após abrir uma delas e ninguém mais se atreveu a sentir o cheiro do troço), sempre ainda está começando os trabalhos quando o segundo é retirado de maca do botequim.
Já estávamos na sexta rodada quando Zeca Fura Bolo (tinha o péssimo hábito de dar um cutucão na bunda de dona Raimunda, uma senhora afro-descendente que cozinhava para o bar e fazia a Mulher Melancia parecer a Mulher Azeitona) me contou que conheceu uma gata fantástica pela internet. Aquilo me intrigou e, ao mesmo tempo, reacendeu em mim a volúpia de macho viril, adormecida após o pé na bunda que recebi de Marcleide, minha ex-noiva. Zeca, então, me deu o endereço do site: http://www.vaiqueetuataffarel.com.br/.
Excitado com a possibilidade de encontrar um novo alguém, decidi encerrar minha participação na disputa (nesse dia, a segunda colocação ficou com padre Cícero que, doidão, comemorou a conquista ficando nu na porta do bar).
Parti feroz para a lan house do bairro, o Cyber Nética do Zé (sempre tinha umas promoções legais, como meia-hora grátis de acesso a uns sites de sacanagem). Me cadastrei com o nome de Spider Strong, dei minhas características e, menos de cinco minutos depois, recebi uma mensagem. A moça se identificava como Gata Solitária Sedenta. Aquilo, para mim, era um sinal dos céus me abrindo o caminho para uma jornada de luxúria. Começamos a trocar mensagens e, em pouco tempo, estávamos íntimos, apaixonados e excitadíssimos. Ela disse se chamar Rô e estaria me esperando no Pelancão de Ouro, a churrascaria mais popular de Santa Cruz (as especialidades da casa eram o ovo cozido na brasa e a picanha de Calango). Marquei o encontro e voltei resoluto para a pensão do Vasco com a intenção de dar uma reforçada no desodorante, aproveitando também para colocar minha roupa de Spider e trocar a cueca (eu estava com a mesma a quatro dias). Após umas três burrifadas de Avanço em cada axila (não acho suvaco uma palavra muito bonita) e já devidamente equipado com minha inconfundível vestimenta, incluindo a nova Zarbo (era uma imitação de Zorba que eu tinha comprado na feira; três pratas um pacote com cinco), segui para o local do encontro. Pontual, cheguei ao Pelancão na hora marcada: meia-noite.
Controlando a ansiedade, abri a porta da churrascaria e entrei. Havia muito pouca gente no local, somente quatro mesas ocupadas: um coroa dormindo com a cara no prato, uma família (a curtição das crianças era arremessar a cadeira de rodas, com o avô pilotando, de um lado pro outro do salão), um anão (quando eu entrei, ele estava subindo na cadeira e, por isso, só o vi depois de um tempo) e uma senhora de uns 80 anos que não parava de sorrir. Escolhi uma mesa no canto e fiquei aguardando a entrada da minha deusa. O tempo foi passando e nada da mulher chegar. A família foi embora, seguida do anão. Depois dois garçons acordaram o coroa, que partiu também (reparei que tinha duas batatas fritas coladas na testa). Só restamos eu a senhora sorridente. Quando eu já me preparava para ir embora, notei que a velha veio caminhando na minha direção. Olhei para trás para ver se eu estava sentado próximo à porta do banheiro feminino, mas a única coisa que tinha atrás era uma parede com um pôster do Campinense (glorioso time da Paraíba que o dono da churrascaria, torcedor fanático do novel clube, fazia questão de exibir). Então, aquela criatura parou em frente à minha mesa e sussurrou com uma voz de quem parecia estar morrendo: “Você é tímido, né, Strong?”. Fui tomado por um frio da cabeça aos pés, meu coração ficou acelerado e a boca secou. Ainda aturdido com aquela visão do inferno, acompanhei os movimentos da velha puxando a cadeira e sentando à minha frente. “Prazer, Romária! Você pode me chamar de Rô!”. Naquele momento, fiz uma reflexão profunda tentando lembrar o que eu tinha aprontado de perverso em minha infância. Alguma coisa muito feia eu tinha que ter feito para merecer aquilo.
Subitamente, me veio uma incontrolável vontade de chorar, mas, buscando uma força sobrenatural, resisti. Mas foi por pouco tempo. Vencendo minha resistência hercúlea, as lágrimas banharam meu rosto após a segunda intervenção daquela pessoa: “Você entra sempre no Vai Que É Tua Taffarel?”. Com a voz embargada, apelei àquela senhora: “Não faz isso não!”. Ainda com o sorriso no focinho (na realidade, a velha não estava rindo; era uma plástica tão esticada que fazia a boca da Elza Soares parecer com a da Angelina Jolie), aquilo chamou um garçom: “Qual o melhor conhaque da casa?”, pediu a velha. “Só tem o Salamandra”, respondeu o cara, que era igualzinho ao Luciano, aquele que fica na aba do Zezé di Camargo. Dona Romária olhou pra mim, piscou com o olho direito (por causa do botox o esquerdo foi junto) e ordenou ao garçom: “Então manda dois copos! Um pra mim e outro pro gato!” E ela ainda falou isso alto, pra todos os outros funcionários ouvirem. Foi nessa hora que me descontrolei. Dei-lhe uma porrada nos córneos, e a jaguatirica velha entrou por dentro da copa. Depois de ouvir o esporro de pratos caindo lá dentro, corri buscando a saída daquele lugar. Dois garçons se plantaram na minha frente tentando me impedir, mas nem imaginavam estar diante do verdadeiro e único Spider-Man: levei os dois com porta e tudo, e segui correndo até me perder pelas ruas escuras de Santa Cruz.
Dois dias depois, já refeito do susto, andava pelo calçadão de Madureira (fui aproveitar uma promoção de pilhas recicladas para poder acompanhar um jogo treino do Fogão contra um combinado de Engenheiro Pedreira) quando vi, pendurado em uma banca de jornal, a manchete do Meia-Hora: “ANCIÃ ENGOLE A DENTADURA APÓS SER ATACADA PELO HOMEM-ARANHA TARADO.
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